Sobre o dinamismo da vida,

ou filosofando com o irracional.

Desenterro minhas memórias para escrever finalmente algo de nem tão abstrato e útil. Enterro aqui o estilo-livre.

É interessante como a vida passa diante de nossas consciências, quase sempre no piloto automático. Não disposamos a atenção necessária aos sutis detalhes corriqueiros, cotidianos que são, em suma, indispensáveis para nosso bom viver. Quando finalmente diminuímos a velocidade – se é que diminuímos – é que ficamos cientes da nova realidade. Para isso, quase sempre é necessário um fator externo, algo que aconteça que nos faça rever alguns conceitos importantes que levávamos consigo até então.

Vejo que por muito tempo deixei coisas esparsas, dispersas, soltas. Com razão, mas sempre me impressiona. Pode-se dizer que, ao menos agora, é um dos resultados da luta vencida por mim, comigo mesmo. Ao mesmo tempo que me impressiona, me preocupa. Como vou  recolher isso tudo? Outrora, não saberia por onde começar.

É indo fundo que se começa, e é por caminhos tortos que se endireita.  Não desejo fórmulas, não desejo padrões. Não.

Não gosto, mas me seguro. Por uma série de motivos que não vem ao caso. Aprendi a ser minha própria camisa de força, afinal, auto-expressão custa caro. Só queria deixar registrado o baque surdo de uma pluma no ar.

It’s always been about you

E como já é de costume, peregrino por aqui para fazer um balanço geral do ano que passou. Desta vez, ainda em tempo. Clichê, sim, até porque nada muda de verdade. Mas é bom, de tempos em tempos, fazermos um balanço geral – que, inicialmente, seria o título desse texto.

2011 foi um ano diferente, em muitos sentidos. É o primeiro que não tenho uma ânsia para passar logo. Sou conservador – acho que tudo está bom assim como está. Fujo do adjetivo conformista, mas a verdade é que, em geral, gosto da sensação de  dever cumprido, característica ao menos em mim, dos últimos meses do ano. Em especial dezembro.

Aqui continua sendo meu reduto. Porém, como disse, já faz algum tempo em que passo aqui apenas para  escrever palavras corriqueiras, ao invés de procurar o ombro amigo que outrora tentei achar por aqui, em textos inspirados, de fato.

Ano estável, que girou em torno de poucas coisas. Pode ser que tenha aprendido a aceitar progressos como parte de algo maior, ao invés de apenas aceitar a vitória como única máxima, desconsiderando o resto. Mas venci, sim – por outros meios. E não faço muitos planos para o futuro, não. Bobagem. Deixo em branco para aprender a gostar das surpresas que me são oferecidas.

Amadurecimento e progresso estiveram lado a lado nos últimos meses. Para quem começou essa página com o objetivo de apenas escrever pensamentos corriqueiros que passam pela cabeça, posso dizer que esse foi o ano que mais atingi meu objetivo. A vontade de ficar nesse ano, admito, se deve às incertezas naturais que o futuro oferece, já que a perspectiva de crescimento nunca é certa, apenas provável. Pensamento realista que pode sim maquiar algumas fraquezas. Nada que o tempo não possa mudar.

Feliz ano novo.

This is it

Perdi dando meu melhor.

Perdi de cabeça erguida, me superei e não me boicotei – o que é parcialmente inédito, diga-se de passagem. Sem dúvidas, fui longe e tenho muitos motivos para poder sentir orgulho de mim mesmo, por todo o esforço e dedicação empenhados. Mas perdi, e sou do tipo que não entra só para participar – quem se lembra dos vices além deles mesmos?

Essa derrota ao mesmo tempo que tem um leve sabor de vitória – vitória pessoal – é bem doída. Doída porque foi por pouco, foi decidida nos mínimos detalhes, nos pênaltis. Não, não acho que tenha sido justo, mas essas coisas ninguém fala, não é de se falar. E outra, justiça não existe - as coisas são como são e ponto. Apenas aconteceu, e foi uma fração de segundo que mudou minha trajetória dos próximos dois anos.

Baque silencioso, foi aquele; foi um tapa invisível na cara com luvas de veludo. Aliás, percebo que é uma tendência: meus baques sempre são silenciosos, como se eu fosse feito de gel, gelatina ou coisa parecida. Não fazem barulho, mas os sinto me cortando corpo adentro. Confesso que não esperava, e uma das coisas que aprendi foi a de não contar vantagem, mesmo que mentalmente no mais íntimo dos pensamentos.

Mesmo se quisesse, não conseguiria avaliar a situação em busca de erros ou comparações. Sou muito exigente comigo mesmo, é verdade, mas não vejo atitudes erradas. Muito pelo contrário, minha superação é quem fala alto. E me vejo dividido quanto a como devo me sentir: se meu melhor não foi suficiente, fico feliz por ter conseguido dar o meu melhor ou triste por não ter feito disso o suficiente?

Não sou acostumado a perder quando me dedico tanto a um objetivo. Quando mergulho de cabeça, costumo suceder. Mas sempre há uma primeira vez, e fato é que continuo sem um grande feito para poder me orgulhar. Algo grande, principalmente que eu considere grande e que tenha meu suor e esforço contidos. Cheguei perto, mas não foi o suficiente.

Digo isso porque querendo ou não, sendo um conceito certo ou errado, perdi, com todas as suas boas e más consequências. E isso fala – sempre fala – mais alto, pelo menos para mim. Por enquanto.

Lost for words

Vejo do sexto andar a Lua refletida na água da piscina. Com a janela aberta, sinto o vento da madrugada cortar minha pele descoberta. Coloco meus óculos pela primeira vez em um bom tempo, cheios de marcas digitais em suas lentes. Decido parar um pouco e olhar para o céu, com a lente que me faz ver o mundo melhor. Pela primeira vez em minha vida, as estrelas não são um ponto difuso no céu e sim um ponto visível de luz nítida. A música de fundo acompanha a toada simples e contínua. Perdido em palavras e em pensamentos.

Irrumpere

Às vezes me sinto rodeado por fantasmas. Creio que eles sempre estão lá, porém nem sempre os percebo. Esqueço-me deles durante a maior parte do tempo, por isso consigo ser leve. Os vejo de tempos em tempos, quase que ciclicamente, e os encontros nunca são realmente agradáveis – em parte porque vejo neles um grotesco e velho retrato meu.

Criados por mim, essa sensação não é exatamente nova; acontece desde muito tempo e não cessará tão cedo. A situação é a mesma: a mesma praça e o mesmo banco, só mudam as cores e as estações. Flerto com a altura – é a minha singela contribuição para minha pessoa. Ousar é demais, parar é pouco. Nas eternas ondas do pensamento, meus cálculos, como sempre, são robóticos.

Não quero necessariamente ser coerente aqui. Não posso tecer raciocínios coerentes se não sou coerência em si. Já tem algum tempo que deixei de ser coisa longa e me tornei máximas, flechas, seco, curto, surto. A coerência ficou para trás, coisa obsoleta. Busco o novo, embora este esteja inseparável do velho. Velho por assim dizer, pois é novo também. Sou eu – eu mesmo, meu âmago. O peguei na curva! Encontrei- perdido, vagando por aí e aqui, cá e lá. É o grito suprimido de  alguém que nunca foi e tem medo de ser, de se assumir si mesmo. Acho que eu mesmo sou coisa errante e divergente. É nessas pequenas lições que descubro que sou uma parte do que acho ser – são flechas que voam para todas as direções. Adoro descobrir quem sou eu de verdade. Não é sempre que tenho esse contato. Um pouco Clarice, Nietzche. Se pudesse correr, fugiria, mas só por um dia. Ruim é viver submerso, submisso, sub.

Essa sensação, fantasmas. Fantasmas que quando mergulho, vejo seus rostos. Não são tão maus assim, fazem sentido quando fecho os olhos. São apenas mal interpretados. Pobres! Vivem à margem por não saberem se inserir. Bela hora, essa quando o vulcão irrompe o hiato da terra para entrar em erupção. É um pouco do que faço, é um pouco do que desejaria fazer todos os dias. Sentir a sublimação da pulsão. Sentir com toda a sua torta intransitividade o quanto suprimo. A impessoalidade é por conta do capricho.

Em mundo-fantasia dividido em três, a intersecção entre o desejo e a razão é o curinga. Esse é o grito abafado, o esforço cego de meu hipertrofiado superego: o meu próprio fantasma sou eu, e pacientemente, conformadamente apenas aguardo pelo dia em que meu véu será retirado e tudo emergirá.

E tudo isso não passa de grito no vácuo.

Clonazepam

Deito. Vejo que estou vivo. Sinto que estou vivo – e que vitalidade.

Céus, que força, como bate. Bate tão forte que me assusta. Verdade que muitas coisas andam me assustando nos últimos temos, mas logo no final do dia? Logo ao botar a cabeça no travesseiro? Nunca fui de ter problemas com isso…

Sinto meu coração martelando em meu tórax, como se na cama tivesse constantemente fugindo de algo. Procuro entender o por quê. Queria só deitar e dormir, como há não muito tempo atrás. Queria não ter que pensar em nada, não ser obrigado a pensar em algo. Mas sou – milhões de minhas míopes teorias médicas me vêm a cabeça, para acelerar ainda mais meus pensamentos e meu coração. É o preço que se paga por ser um candidato a hipocondríaco com medo de médicos.

Perco-me em minha cabeça como ninguém, desde sempre soube que isso era verdade. Às vezes só eu posso me derrotar; geralmente é o que acontece. Mas isso cansa. Como queria voltar um pouco no tempo nessas horas…

Radio

De certa forma, essa ida me fez bem. Poderia até ficar mais, já que por hora não tenho nada que me prenda; visto de agora, da quase volta, essas menos de 48 horas pareceram poucas.

Esse cenário me traz muitas lembranças, boas e ruins. Muitas esperanças e choros, parte do meu passado que ficou aqui. Ainda bem que passou, mas é interessante ver como algumas coisas permaneceram iguais e outras mudaram tanto nesse breve intervalo de três anos.

O que sobra (e acumula) é uma nostalgia generalizada. O passado recente se mistura com o longínquo. São muitos os elementos que hoje retornam passageiramente: a rua, a casa, o cheiro, a música clássica ecoando na sala; o computador, o ônibus, o metrô; a praia, ah.. sempre bela e perigosa – periogosa como um bueiro voador.

Enfim, já é tarde e o amanhã me espera.

Static

Contagem regressiva, faculdade, biblioteca, textos, marca-textos, canetas, resumos, papéis, provas, trabalhos, risadas, abraços, olhares, ônibus, metrô, avenidas e shoppings.

Contagem regressiva, folgas de quarta-feira, quase férias, férias, shoppings, estradas de terra, carros alugados, MASP, ônibus, metrô, sacomã, acordar mais cedo, sorrir, dormir de novo sem querer, sushi, pizza, mais risadas, mais abraços, mais olhares, sair mais cedo, alguma angústia.

Escrever, dormir, acordar cedo porém atrasado, tomar banho, carro, metrô, ônibus, café-da-manhã, filme, preparações, esconder surpresa, angústia crescente, almoço, bênção, carro, estrada, apertos, aeroporto, encontro, fila, esquecimento, confusão, frustração, medo, check-in, alívio, pouco tempo, adeus, lágrimas, outro adeus, embarque, volta – baque por vir.

Animação suspensa, pensamentos passageiros, flashes, contagem progressiva.

Olhar parado, estrada parada… saudade.

What do you want?

Sua mente estava acelerada, havia permanecido assim a noite toda. Formulava perguntas e as respondia incessantemente desde o momento em que soubera do que estava por vir. De certa forma, fora um esforço desnecessário que apenas o prejudicou.

Cansado, foi à luta. Seus olhos vermelhos e secos denunciavam a noite não dormida – nada que umas xícaras de café não maquiassem em alguns minutos. Pouco tempo depois, enfim se deparou com o desafio final que aceitara (e esperara por) algumas semanas antes. Sem dúvidas, tinha méritos por ter chegado até onde estava. Mas não era o suficiente.

De nada adiantou o conteúdo mental produzido durante os preciosos minutos de sono. Não que ele não soubesse disso – ora, é muito difícil prever o futuro. Errara o foco.

Ele sabia o que queria, mas apenas em termos gerais. Se o mundo fosse feito apenas de superfície, estaria de bom tamanho. Mas não era. Bem, prensado contra a parede é difícil saber bem o que se quer… mas isso não vem ao caso. De qualquer forma, não foi o suficiente: um aprendiz atualmente deve saber mais que o mestre.

Soube o que queria assim que saiu de lá, sério e sabendo que muito provavelmente não atingira seu objetivo. Mas tudo é aprendizado, com ele as coisas só funcionam bem a partir da segunda vez.

Schweigen

“Schweigen ist Gold” – dizia o ditado. “Silêncio é ouro”, ao pé da letra.

Quanto tempo; é bem isso que tenho a dizer. Já são mais de três meses. Passou rápido. Certa vez disse aqui que as épocas em que os posts rareiam são as que eu estou melhor. É verdade, e agora eu iria além: são as épocas em que eu deixo de pensar para aproveitar um pouco a vida. Incrivelmente, não tenho pensado em muita coisa – ao menos não de um modo obsessivo, o que para os meus padrões é um tempo recorde. Fico feliz com isso. People do change, after all.

Não sei se essa mudança foi um processo consciente ou se apenas não me falta motivos para pensar daquela forma horripilante. De qualquer forma, assimilei bem a lição de outros tempos. Ainda me interesso pelos porquês, mas não como antes: acho que alguns simplesmente não existem. O que sinto é que coloquei minha cabeça num hiato indefinido, e nunca foi tão bom fazer isso. Chega; quero ter preguiça de pensar.

Posso até falar que isso é um contra-movimento pessoal –  e talvez de fato o seja – só quero ter o gostinho de não ter nada passando pela minha cabeça. Para ficar mais bonito, quero silêncio. As coisas são o que são, e pronto – simples assim. Chegará o tempo de pensar um pouco mais. Por enquanto, quero apenas viver a rotina que adoro… mas chega de auto-afirmações.

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